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Hoje é dia Nacional do Livro Infantil

18/04/2017

Hoje é dia Nacional do Livro Infantil, e você sabe por quê?
 

 

Porque dia 18 de Abril é aniversário de Monteiro Lobato!

Provavelmente você o conhece por conta daquele famoso Sítio onde vários personagens importantes da nossa cultura e folclore eram protagonistas de grandes aventuras junto de Narizinho, Pedrinho e da boneca Emília. Ou talvez o conheça mais pelas polêmicas tidas nos últimos anos referentes à sua obra. Acontece que Lobato está aí, década após década presente na nossa literatura - os livros da foto são do meu já falecido tio avô, datam de 1956 e os guardo com carinho pois os li, também.

 

Pois bem, vamos conversar um pouquinho sobre isso tudo?
 

Talvez você não saiba que sem Lobato a literatura infantil no Brasil tivesse um perfil bem diferente e quem sabe tardio em comparação à tantos outros lugares. Graças à Lobato, considerado um dos maiores livreiros deste país, grandes clássicos da literatura internacional chegaram aqui e personagens de nosso folclore tomaram forma no nosso imaginário com mais ímpeto.
 

E mais, Lobato também trouxe para a literatura infantojuvenil histórias de caráter hoje, conhecidas como interdisciplinar, ou multidisciplinar. Histórias de ficção que trazem questões práticas como aritmética, ciências, física, astronomia e tantos outros temas. O cativante nestes livros em especial era o fato de que os personagens ao redor destes temas continuavam a ser os mesmos do Sítio, com uns e outros específicos para cada história. Assim ele conseguia capturar o interesse pela leitura.
 

O que há então de tão fantástico nesse mundo criado por Monteiro Lobato é que, com todos os seus livros temos um universo literário quase que completo. Seus personagens são sempre independentes, bem resolvidos – em parte atrevidos e inocentes; as aventuras e o desprendimento são constantes; a mistura entre a fantasia e as questões reais estão sempre presentes; os animais também têm sua vez dando aquela pitada de fábula às histórias.
 

A Emília, boneca criada por Tia Anastácia, é o exemplo maior de tal riqueza. É falante, atrevida, engraçada, tem vida própria e ainda assim, toda cheia de personalidade, é tratada por Narizinho como uma boneca mesmo.  É esse ser "boneca" e não "criança" que dá à Emília as liberdades que seus amigos humanos não têm...

 


Sobre as polêmicas, a meu ver não há, de fato, defesa a ser feita sobre alguns de seus escritos e posições políticas. Em seu famoso livro Caçadas de Pedrinho, o autor comete injúrias quando ofende de forma racista a cozinheira Tia Anastácia. A visão estereotipada do negro em sua literatura não é inocente – declaradamente simpático ao movimento eugenista no Brasil, Lobato também depreciava negros e estereotipava índios e trabalhadores rurais.

Jeca Tatu é resultado desta visão preconceituosa e estereotipada do homem do interior como burro, ignorante e preguiçoso. Por isso, muitas escolas deixaram de adotar Lobato como leitura obrigatória e há ainda intensas discussões sobre como se editar Caçadas de Pedrinho.

Sim, ironias a parte mas Lobato como grande editor e livreiro, revolucionário na adaptação e edição de livros didáticos, hoje enfrenta graves acusações em seus livros, com razão. Não escapa ao racismo intenso de sua época, mas não podemos reduzi-lo à contextualização de seu tempo já que suas obras estão até hoje presentes na formação de tantas crianças.

 

Então... LER OU NÃO LER MONTEIRO LOBATO? POR QUE LÊ-LO AFINAL?

 

Bem, a minha resposta é simples. Vocês é quem decidem, afinal só nós mesmos que temos o poder de decisão e crivo para censurar ou não a leitura de uma criança.

Mas minha opinião talvez não seja tão simples assim:

Não ler Monteiro Lobato não o tornará menos racista. Mas com certeza o tornará menos influente já que não faria parte do programa nacional de educação. Quando se financia uma obra que é claramente pejorativa e depreciativa estamos ajudando a disseminar o preconceito em camadas mesmo que indiretas ou superficiais para uma criança.

Como pensar em uma criança negra lendo uma história onde não se vê qualquer negro protagonista, que não a Tia Anastácia que ainda sim sofre preconceitos muitas vezes?

 

Só que ainda assim não resolvemos o problema. Não estaríamos fazendo nada mais nada menos do que esconder a verdade sobre Lobato e suas posições. Estaríamos censurando-o.  A obra de Monteiro Lobato, como a de qualquer autor, não pode ser vista de forma separada à sua personalidade e caráter. Tudo a influencia.

Acredito que existam formas de ser ler Monteiro Lobato e idade para se criticar cada leitura. As adaptações hoje tidas para o cinema, televisão, jogos e tudo mais não carregam o peso que a literatura de Lobato muitas vezes traz.

 

Mas muitos também são os livros de Lobato que não trazem nada disso e são (quase) grande maioria. Talvez devêssemos escolher quais livros de Lobato ler e quais não ler de forma (tão) livre. Como e quando identificar e pontuar na leitura, a postura inadequada da narrativa quanto a um personagem.

 

Isso é importante, e mais: mostrar para as crianças que ali naquele momento, algumas pessoas pensavam e se expressavam daquela forma e que hoje não deve (ou deveria) ser assim. Dialogar com ela e mostrar o lugar da obra em si. Não é justo também tirar da literatura infantojuvenil brasileira autor de tamanha importância e significado para muito do que temos hoje. 

Regina Zilberman, em Como e Por que ler a Literatura Infantil Brasileira, dedica dois capítulos para falar sobre Lobato e suas contribuições. Em um deles comenta que:

 

O Sítio está aberto para todos, sem discriminação. Além dos mencionados Quindim e Conselheiro, admite as personagens do mundo da fábula, como príncipes, princesas e outros seres mágicos que fogem de Dona Carochinha, conforme narra Reinações de Narizinho. Em O Sítio do Pica-pau Amarelo, Dona Benta chega a comprar terrenos vizinhos, para abrigar as mais variadas personagens e figuras, que migram para o lugar que consideram o melhor para se viver.

 

Lobato é muito do que a cultura brasileira tem. Acredito que hoje já possamos preencher as lacunas de suas obras que não servem mais à sociedade contemporânea e seus valores - mudados enfim, afinal. Não se deve é negar Lobato. Nem que o foi grande, nem que o falhou.
 

 


 


 

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