• Ana Claudia

O menino que espiava pra dentro: o papel da mediação e leitura crítica


Recentemente, a redescoberta de um livro de Ana Maria Machado balançou a internet com acusações de apologia ao suicídio. Será mesmo?

O menino que espiava para dentro fora editado a primeira vez em 1983 pela Editora Nova Fronteira e hoje, circula pelo mercado em sua segunda edição pela Global Editora.

O livro, adotado há tempos por diversas escolas do país, conta a história do menininho Lucas – um garotinho que presta atenção em tudo, tudo mesmo! Mas não presta atenção só naquilo que todos podem ver, presta atenção em coisas da imaginação! Fica ali distraído, olhando para outras coisas e pensativo, diz que fica “olhando pra dentro”.

No livro, Ana Maria Machado explora com toda destreza o mundo da fantasia criado por tantas crianças, dentro de si mesmas. Aqueles momentos em que elas ficam quietinhas, pensativas... Ou às vezes agitadas, com a cabeça em outro mundo, repleto de fantasia e aventura.

O livro é um mar de intertextualidade e referências aos clássicos universais da literatura infantojuvenil. Nele, passeamos pelos encantamentos de mundos e personagens da fantasia, junto do amigo imaginário de Lucas, e revisitamos trechos de A Bela Adormecida e A Branca de Neve.

Mas esta semana, a partir de um episódio particular entre uma criança e sua mãe, a interpretação deste livro virou às avessas. No caso, após ler o livro, um menininho questionou à mãe algo como: se eu comer uma maçã e engasgar, vou para o mundo da imaginação?

Leia aqui uma matéria sobre o caso.

E, sem nenhum discernimento ou contextualização sobre a obra, toda a afronta ao trecho do livro viralizou na internet em um copia e cola entre cliques e compartilhamentos, transformando um livro cheio de potencial a um reducionismo um tanto falacioso.

Na minha mais simplória opinião, diria que este é mais um caso do repúdio por parte dos pais a pensarem e a lerem com seus filhos livros que falem sobre temas como morte, tristeza, solidão, violência.

Mais do que o trecho do livro, a questão é um tanto mais íntima quando pensamos nos valores fundamentais na formação de leitores. Isso tem se tornado um dificultador latente para o mundo da literatura infantil – até mesmo na hora de indicar livros, nós livreiros por vezes temos que nos censurar.

De início, com tanta comoção, o que pude notar neste infeliz episódio é que além de não conhecerem a verdadeira parte do clássico - onde a Branca de Neve de fato se engasga com um pedaço de maçã – os valores e conservadorismos entre lá e cá se perdem em dois pesos e duas medidas.

Em artigo de Elesa da Silva sobre o livro, compreendemos um pouco mais sobre o clássico e o contemporâneo.

O mesmo julgamento ao trecho de Ana Maria Machado não é feito ao clássico dos Irmãos Grimm. Por que será? Ainda que me digam que a história mais conhecida seja a da maçã envenenada – procuraria uma criança, um veneno de fato ou algo similar, para entrar no mundo da imaginação? Seria essa a grande questão? Será que não poderíamos pensar o livro como um grande explorador da magia da imaginação infantil?

Um ponto que poderia ser felizmente discutido com o livro é sobre a introspecção de muitas crianças, e até onde isso seria bom ou ruim. No final das contas, apesar de adorar se aventurar pela sua própria imaginação o menino percebe que não pode ficar lá pra sempre. Que tem coisas muito boas e divertidas no mundo real e que compartilhá-las é também, muito bom. Um livro cheio de potencial para se trabalhar pedagogicamente.

Descubra formas de trabalhar com o livro.

O que me levou a pensar: o distanciamento dos pais da literatura infantil e do processo de leitura de seus filhos é grave. Não basta só escolher bons livros, ter uma vasta biblioteca (inclusive dos clássicos) se a leitura destes livros não é explorada e valorizada. Penso que essa mãe poderia ter conversado com seu filho sobre o que o livro realmente quis trazer, o que o menino queria de verdade.

Um trecho do livro me remeteu a uma linda lembrança da minha infância, que muitos de meus amigos já conhecem de tanto eu repeti-la: não sei ao certo se com 5 ou 6 anos de idade, fiz um questionamento pra minha mãe de arrepiar os cabelos – quanto tempo dura o pra sempre?

Sim, pois é. Eu tinha acabado de levantar da cama na casa da minha avó, no meio da noite, e no escuro mesmo fui até a sala e sentei no sofá que ficava em frente a uma grande porta da varanda. A porta se mexia pra lá e pra cá com aquele assovio tenebroso trazido pelo vento. Mas corajosa, lá eu fiquei até a minha mãe me encontrar. Ela sentou ao meu lado e perguntou:

“Filha o que você tá fazendo aqui?”

“Pensando, mãe”

“Hum... essa hora pensando. Pensando no quê?”

“No pra sempre... Mãe, quanto dura o pra sempre?”

“Filha, pra sempre é algo que não tem fim... dura até a gente perder de vista”

“Mas mãe, ser feliz pra sempre, não é pra sempre porque a gente morre. E quando a gente morre é pra sempre mesmo?”

“Sim filha, depende do que você acredita”

“Mas eu não quero ser nada pra sempre. E se você morrer e eu não te ver mais pra sempre?”

E eu comecei a chorar apavorada, copiosamente pra desespero da minha mãe que não podia fazer nada além de um bom carinho.

A ideia do pra sempre para mim não fazia sentido mesmo, como não faz até hoje. Mas esses questionamentos existem e é mais comum do que muitos pensam. No final tudo se resolveu, claro....

No livro, Ana Maria Machado também traz essa questão à tona. Afinal, nos clássicos o que mais se lê é o “felizes para sempre”, a eternização das boas coisas. Que nem sempre acontecem na vida real mas que ainda sim são importantes de se pensar quando falamos em processos de formação de leitores.

É claro que situações como essa acontecem a todo instante. O desconhecimento com a crítica literária, o hiato interpretativo e metafórico, a forma simplória de leitura e outros tantos fatores são os grandes dificultadores deste processo. E não temos que penalizar a mãe e sua interpretação do livro e sim instigá-la a essa reinterpretação. Os adultos precisam compreender que o papel de mediadores é importante - não só no processo de leitura e alfabetização, mas também na interpretação das histórias.

A imaginação das crianças é imensa. As questões com o mundo, com seu lugar de mundo: tudo é grandioso para elas e muito inquietante.

Cabe a nós, saber mediá-las e não censurá-las.

Ana Maria Machado e sua trajetória pelo mundo da literatura infantojuvenil:

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