Revisitar Monteiro Lobato


18 de Abril é Dia Nacional do Livro Infantil e é dia de Monteiro Lobato.

Muitos podem pensar “Ah, mais Monteiro Lobato? Já deu, não?”

Após 70 anos de sua morte, completados ano passado, seus textos entram este ano em domínio público – agora, todas as editoras podem reeditar, reinterpretar e adaptar sua obra, sem a obrigatoriedade de se pagar por seus direitos autorais.

Mas em tempos onde muito se discute sobre racismo e discriminação, as Emílias, Pedrinhos e Narizinhos invadem as prateleiras das livrarias e nos fazem refletir um pouco mais sobre as polêmicas que envolveram as obras de Lobato, especificamente no livro “Caçadas de Pedrinho” (1933). É inegável que essas expressões causem hoje um desconforto e repulsa na leitura. E isso é um bom sinal – de que hoje temos esse olhar crítico sobre obras consagradas , não só sobre as de Lobato mas de tantos outros autores de clássicos nacionais e universais que são até hoje base de formação literária para tantas pessoas.

Ao mesmo tempo em que estamos livres para decidir o que ler e o que incluir na leitura de nossas crianças é importante também

termos cuidado com discursos que censurem por completo tais obras, pois elas têm ainda muito a nos enriquecer.

A importante visão de Lobato como escritor e editor que é, sobretudo, fundador de nossa literatura infantil brasileira, traz com toda força nossa cultura e raízes, das mais profundas. O contato com a natureza, os personagens mitológicos e folclóricos, a riqueza de nossos costumes, culinária e comportamento. É história, por si só.

Preservando este sentimento, algumas editoras primaram por uma curadoria de seus textos com esse olhar contextualizador.

Em artigo para a Folha em 2010, Marcelo Coelho já comentava sobre a provável reedição de sua obra, a partir de notas e explicações sobre os termos utilizados pelo autor (para ele um exagero). E não é que aconteceu?

A Companhia das Letrinhas trouxe a especialista em literatura infantil Marisa Lajolo, considerada também, maior referência nacional sobre a obra Lobatiana, para organizar a coleção “Biblioteca Lobato”, que é inaugurada com “Reinações de Narizinho” e ganha pela Letrinhas uma edição primorosa, de tirar o fôlego mesmo!

A contextualização começa nas primeiras páginas do livro que traz este olhar introdutório ao mundo mágico do Sítio do Picapau Amarelo com a ressalva:

“Antes de encontrar Emília, Narizinho, Pedrinho, (...) vale a pena conversar sobre algumas coisas importantes.”

Um pouco de história, cultura e aproximação com um Brasil recém abolicionista, nos apresentam o cotidiano e pensamento de época – fundamentais para evitar o distanciamento com o leitor de hoje.

A estratégia para contextualizar sua obra continua a partir dos paratextos, todos pensados pela especialista em literatura Cilza Bignotto: Emília e Narizinho, fazem parte da história integral do livro, mas também são as personagens contemporâneas que indagam e questionam algumas expressões e situações, aparecendo como notas de rodapé.

As ilustrações da artista Lole são incríveis – de forma original e criativa, ela trouxe esse mundo fantástico e surrealista das histórias de Lobato de forma impecável, proporcionando um novo imaginário para seus personagens. Em matéria especial no Blog das Letrinhas, a artista fala um pouco sobre a obra e seus estudos para ilustrá-la.

“Não foi tarefa fácil criar a Emília, fiz vários testes até chegar na versão final” Lole

Companhia das Letrinhas / Divulgação

A editora também apostou em uma outra forma de aproximação com o leitor, publicando “Reinações de Lobato: Uma biografia”.

Nele, Lajolo se junta à editora e historiadora Lilia Schwarcz para falar um pouco sobre a vida de Lobato desde seu nascimento em Taubaté até sua consagração como autor.

Repleto de textos, fotos, ilustrações, referências e notas explicativas, o livro é um prato cheio para conhecermos um pouco mais sobre sua história pessoal e obra com linhas do tempo, curiosidades e uma nostálgica viagem pelas capas das edições já feitas da turma do sítio.

Outra editora que reedita a coleção a partir deste olhar contextualizante é a Autêntica.

Com apresentação da escritora e educadora Maria Valéria Rezende, as edições da “Coleção Monteiro Lobato” começam com uma pequena história: “Mais de oitenta anos depois...”.

Nela conhecemos Narizinho, bisneta de Lúcia. Peraí, como assim? Isso mesmo, a Narizinho aqui é como sua bisa – de nome Lúcia, com o mesmo apelido. Ela é bisneta daquela do sítio, e chega em prantos em sua casa após alguns episódios confusos na escola.

De forma divertida, Maria Valéria Rezende nos traz uma introdução em forma de capítulo onde as questões que permeiam a obra de Lobato aparecem de forma contemporânea – mas surgem também a partir dos questionamentos da criança Narizinho, que fica no lugar entre realidade e fantasia que fez parte da sua família ao mesmo tempo que do imaginário popular de tantas pessoas.

“... E você está preparada, também, para explicar pra todo mundo o tanto de coisas boas e divertidas e importantes e necessárias e enriquecedoras que os livros do Monteiro Lobato ensinaram por gerações e gerações de crianças brasileiras!”

A edição não traz uma “invasão” nos textos de Lobato, mas coloca um local de reflexão antes do texto integral, entregando para o leitor a posição crítica que este tem ao começar a ler os textos do sitio.

As ilustrações de Diogo Droschi foram de uma sensação nostálgica para mim. Designer gráfico e com inúmeros trabalhos de ilustração no currículo, tem uma bela variedade em seu repertório. Para esta coleção, de acordo com a edição, as cores mudam dentro do texto conforme a paleta de cores. Em "Reinações de Narizinho" temos os tons terrosos e alaranjados, já no "Sítio do Picapau Amarelo" as ilustrações aparecem em tons de verde e cinza. E são todas de uma simpatia tremenda!

Organizada pela editora Sônia Junqueira, esta coleção também trouxe toda a preocupação e curadoria de especialistas sobre o tema que trouxeram um pouquinho de suas referências, experiências e afeto ao comentar a importante obra de Monteiro Lobato.

"Em suas páginas nos transportávamos para mundos inimagináveis, para universos indescritíveis, e nossas mentes se abriam e queriam saber, e perguntavam, e procuravam respostas (...)" Sônia Junqueira

Mais um pouquinho...

Eu fui leitora tardia de Monteiro Lobato. Fui encantada pelo seu universo como muitos – através das séries de televisão. Aquela que fez parte do meu imaginário foi a produzida pela Rede Globo e passava na extinta TVE.

Talvez em momento onde ficava cada vez mais comum o primeiro contato com os clássicos através das adaptações, meu tio-avô me deu uma edição sua de “Reforma da Natureza”, editada pela Brasiliense. Foi, até onde lembro, o livro com menos ilustração e mais texto que chegou à minha mão naquela idade – 7 ou 8 anos. E me lembro que fiquei um tanto desinteressada – e o li de forma desordenada, instigada pelas ilustrações de Paulo Ernesto Nesti.

Sem qualquer orientação e mediação, confesso que só fui alertada sobre o racismo em seus livros quando, em 2010, “Caçadas de Pedrinho” (1933) foi colocado em questão. E eu também me questionei sobre a leitura na infância e se eu guardava essa lembrança de seus textos. Talvez pela idade e imaturidade, talvez por não ser eu aquela que se identificaria com o preconceito, essa memória eu não tinha.

Já tinha lido alguns artigos que falavam sobre a eugenia de Lobato e outras polêmicas que colocavam o autor e editor neste lugar. E bem, não

tenho como negar que a crítica tem toda razão de ser.

Somado às essas questões, temos ainda apontamentos sobre a relevância das histórias de Lobato para os dias de hoje, que tratam de um tempo e lugar muito distantes da realidade das crianças. A vida rural, os costumes, cultura etc.

Mas não entendo que exista uma forma de ser Lobato. A leitura está posta, os livros estão por aí e cada editora, pessoa e artista tem em seu poder as formas de imaginário e representatividade que podem tirar de suas histórias. A contextualização é necessária para os livros de Lobato como que para tantos outros, que escritos cada qual em seu tempo, tem no autor suas visões de mundo e sociedade. Alguns comentam sobre a necessidade de se distanciar autor e obra. Acho isso muito complicado e entendo que o melhor mesmo é aproximá-los para que suas colocações estejam inseridas em um contexto próprio.

A turminha do sítio está aí, quando se brincava de canivete, armas eram comuns para o povo da roça, as meninas eram donas de casa e não estudavam, e essas histórias são lidas em tempos que a violência nos livros infantis é discutida, a morte, a petulância e rebeldias infantis. Tudo isso faz parte - e fazia a ponto de estarem nos livros para crianças. Lobato está de vento em poupa.

Há de se abrir o escopo para mergulhar nos grandes feitos que sua literatura ainda traz ao universo da imaginação e formação infantojuvenil.

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