• Ana Claudia

Com a palavra a autora: Fernanda Paraguassu


Autora do livro A menina que abraça o vento - a história de uma refugiada congolesa, Fernanda Paraguassu nos conta um pouco de sua inspiração para o livro

Contar histórias baseadas em vidas reais não é fácil. Existem palavras certas, o cuidado entre o que contar e omitir; como contar talvez seja a questão mais importante. Pense então, em como trazer esse tema para as crianças: qual linguagem usar? Como transmitir um sentimento de pertencimento, tão difícil de se explicar?

Por que Mersene teria fugido? Por que seu país não é seguro? Por que seus pais não podem estar mais juntos? Por que sua vida é tão diferente?

Fernanda conheceu o projeto Cáritas-RJ quando pesquisava sobre mulheres refugiadas na cidade do Rio de Janeiro. O livro sobre Mersene nasceu a partir da sua experiência e vivência com essas famílias. Com suas palavras, Fernanda nos mostra o quão grandiosas são as crianças e suas atitudes para driblar sentimentos complexos e situações tão delicadas – como o medo e a saudade.

Na compra de A menina que abraça o vento - a história de uma refugiada congolesa, você contribui com o Programa de Atendimento a Refugiados da Cáritas-RJ.

Por todo este processo pelo qual a autora passou, a Livreirinha quis fazer algumas perguntas!

Se você ficou curioso sobre o livro, pode dar uma olhada no post que fiz de A menina que abraça o vento.

Com a palavra, a autora:

Fernanda, quanto tempo durou sua pesquisa na Cáritas e como foi seu primeiro encontro com as crianças refugiadas? Foi a primeira vez que você esteve em contato com elas?

Eu aguardava para conversar com algumas mulheres da República Democrática do Congo, quando fui abordada pela filha de uma delas. “Oi, o que você tem nesse caderno?”, perguntou a menina de tranças coloridas no cabelo. “Tenho histórias”, respondi. “Faz uma história pra mim?”, insistiu. “Tenho uma outra ideia. Você me conta uma história e eu escrevo aqui”. Ela criou a história de uma princesa que morava no lixão e que, de alguma forma, acredito que representava um pouco a vida e os sonhos dessas meninas que foram morar em Jardim Gramacho.

Meu contato com aquelas crianças continuou ao longo de alguns meses. Elas frequentavam a casa da Cáritas RJ, no bairro do Maracanã, todas as quintas de manhã, enquanto suas mães tinham aulas de português na UERJ. Entre uma conversa e outra para conhecer as histórias dessas mulheres, que chegam sozinhas na cidade para solicitar refúgio ao fugir de perseguições e conflitos em seus países, eu observava essas meninas brincando.

E foi numa dessas brincadeiras que surgiu a inspiração para o livro A menina que abraça o vento – a história de uma refugiada congolesa.

Seu outro livro, "Buenos Aires com crianças – aventurinhas na terra do dulce de leche", não é um livro voltado diretamente para o público infantil. Como foi sua experiência em contar a história de uma criança, para tantas outras?

No livro A menina que abraça o vento, a história foi construída especialmente para a criança. Meu contato com a literatura infantil sempre foi intenso. Desde cedo, lia para meus filhos, hoje adolescentes. Aliás, meus filhos foram meus primeiros leitores. Assim que terminei de escrever a história da Mersene, mostrei para eles, que aprovaram e me deram força para ir em frente com mais confiança.

Abraçar o vento foi uma brincadeira real criada por alguma delas? O que te tocou quando pensou em como se abraçar o vento?

Era uma brincadeira de casinha entre meninas congolesas. Uma delas se descolou do grupo e saiu correndo, olhando pra cima, como quem olha nos olhos de alguém mais alto. “Papááá!”, ela gritou. E se abraçou. Ficou ali paradinha durante uns segundos, de olhos fechados, num abraço apertado, como quem estava matando a saudade daquele pai. Eu estava sentada sozinha no canto de um degrau. Fiquei emocionada e impressionada com a força daquela criança.

O que mais te motivou e como foi o seu processo?

Quando observei a brincadeira das meninas e vi uma delas se dando um abraço, imaginando o próprio pai dentro daqueles bracinhos, achei que ali eu tinha uma história importante para ser contada. A maneira como aquela menina lidava com a falta de uma pessoa querida era fantástica. Ela encontrou um jeito próprio de tocar a vida com toda aquela saudade. Escrevi a história e fui conversar com o pessoal da Cáritas sobre a publicação de um livro. Eles viram uma oportunidade de ter um material que poderia servir de base para as conversas que a Cáritas faz nas escolas sobre o refúgio e o trabalho de acolhimento da instituição.

Qual a importância, ao seu ver, em trazer o tema dos refugiados para as crianças? Existe algum filtro em temas que devem ou não serem abordados em livros infantis?

Quanto mais variada a oferta de temas, mais possibilidades teremos de preparar nossas crianças para enfrentar momentos difíceis, a conviver com o diferente e a despertar empatia. Claro que a escolha do tema e a forma de abordagem deve ser uma escolha de cada família, respeitando o momento de cada criança.

Atualmente, mais da metade dos refugiados no mundo são crianças. A falta de conhecimento da população local sobre o tema do refúgio é uma das principais dificuldades para a inclusão dessas crianças no novo país. É muito importante explicar o que é um refugiado. São pessoas que precisam sair do seu país para se proteger e podem nos ensinar novas formas de lidar com os desafios do mundo.

E como foi ter sua história ilustrada pelo lindo trabalho de Suryara Bernardi? Como vocês se conheceram?

Fui apresentada pela Editora Voo ao trabalho da Suryara e fiquei encantada com o traço dela. O livro tem ilustrações lindas e cheias de poesia, que enriqueceram a história de uma maneira espetacular. Conheci a Suryara pessoalmente no dia do lançamento do nosso livro, na Livraria da Travessa. É uma grande artista. Virei fã dela.

Sendo mãe e, agora, escritora de livros infantis, você acredita que sua relação com os livros tenha mudado?

Ou sempre foi uma entusiasta de livros na formação das crianças?

O livro pode ajudar a apresentar novos temas e iniciar uma conversa com a criança. Ouvir dela o que chamou sua atenção, tirar dúvidas, esclarecer, trocar ideias. E construir essa capacidade de leitura dos pequenos pode ser um caminho muito enriquecedor. Afinal, hoje, com o acesso a informação desde cedo, perdemos totalmente o controle da “pauta” das crianças. Cada vez mais, são elas que trazem a novidade para casa e definem o tema da conversa com a família e nas salas de aula.

E a curiosidade? Mate um pouquinho dela aqui.

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