Cecília Meireles


Ou Isto ou Aquilo?

A dica de hoje tem seu lugar de emoção. É sobre lembrança e afetividade, é parte da memória de muita, mas muita gente mesmo.

Cecília Meireles é, sem sombra de dúvidas, uma referência quando pensamos em poemas na literatura infantil. Quase sempre o primeiro contato das crianças com o universo das rimas, dos jogos de palavras e dos versos, Cecília é sempre Cecília.

Mas porque me remeteu ao dia das mães? Bem, Cecília foi criada pela avó. A figura de mãe para ela foi algo diferente na infância. Mas esteve ali. Eu, cresci e amadureci ao lado da minha mãe, que foi meu grande incentivo nas leituras. Me lembro, sentada no chão, fazendo cadernos de caligrafia, lendo livros curtinhos, e ela ali ao meu lado, sempre me ajudando e lendo comigo. Mas perdi minha mãe muito cedo. Fui também criada pela minha avó. E hoje tudo é lembrança e saudade.

Ou Isto ou Aquilo foi o primeiro livro de poemas que li na infância. Lembro do meu lugarzinho no chão da sala da vovó, lendo uma história diferente a cada página. Tá certo que alguns eu não entendia muito bem, mas eram divertidíssimos de ler e bem alto em voz alta.

Como “Rômulo Rema”:

Rômulo rema no rio. A romã dorme no ramo, a romã rubra. (E o céu). O remo abre o rio. O rio murmura. A romã rubra dorme cheia de rubis. (E o céu).

Rômulo rema no rio.

Abre-se a romã. Abre-se a manhã. Rolam rubis rubros do céu.

No rio, Rômulo rema.

Imaginem que a leitura e a rima do poema soavam gostoso. E eu lia e relia e relia, e cada vez mais rápido como uma brincadeira (santos ouvidos, vizinhos pacientes). Mas afinal, o que era rubro, rubi e romã? E é aí que vem o lugar da memória, em especial da minha mãe.

“Ô mãe, o que é romã?” “É uma fruta filha, cheia de sementinhas vermelhas dentro” “Ô mãe, o que é rubro?” “É a cor vermelha, muito muito vermelha, filha”

E aí seguia a imaginação do rubi rubro, da romã rubi, da romã rubi rubro sem fim!

O livro foi publicado a primeira vez em 1964, então já dá pra ver quantas e quantas crianças não cresceram lendo os livros de Cecília, não é mesmo? A minha edição de Ou Isto ou Aquilo era em brochura, com as ilustrações de Beatriz Berman. A capa era repleta de flores, montando uma moldura em jardim, bem me lembro, editado pela Nova Fronteira.

Confesso que não sei o que fiz dele, se emprestei ou dei. Mas que ficou na lembrança, isso sim.

O livro traz um turbilhão de coisas que pertencem ao universo infantil. A bola, a avó, o mistério da chuva; um barco, as escolhas!

Hoje, os títulos de Cecília são parte do catálogo da Editora Global.

Esta edição que trouxe para vocês é encantadora pois além de ter um charme para quem gosta das capas duras nas publicações, tem as lindas ilustrações de Odilon Moraes – o poeta do desenho brasileiro.

Mas Cecília Meireles tem muitos outros títulos e fica até difícil de escolher.

Em “Canção da tarde no campo”, por exemplo, acompanhamos uma menininha andando sozinha por vales, bosques e florestas.

Esse é um outro livro que me lembra mãe, afeto e pertencimento, até mesmo por conta da Cecília e sua história.

Enquanto anda, um pouco perdida, vai conhecendo coisas novas, admira a beleza de tudo o que vê. Mas ela caminha sozinha. E aí fiquei pensando nas descobertas que fazemos criança, das coisas, do mundo, do todo. Mas quase sempre temos ali, juntinho, o olhar de mãe. Ainda que se espante com o que não conhece, ela sabe que está protegida pela natureza, pela mãe natureza.

Caminho do campo verde, estrada depois de estrada. Cercas de flores, palmeiras, serra azul, água calada. Eu ando sozinha no meio do vale. Mas a tarde é minha.

É a tarde, à noite. As pedras, as flores, as estrelas. Ela sabe que tudo a observa, e ela olha de volta, caminhando e caminhando. Quando li este livro a primeira vez fiquei pensativa. Poderia ser um livro um pouco melancólico para as crianças, uma menina ali sozinha, caminhando pelo desconhecido, grande e infinito nas palavras de Cecília.

Mas o livro traz uma mensagem linda. Descoberta, coragem, afetividade com a natureza. Traz emoção verso a verso e faz, de forma incrível, com que a gente fique pensando e refletindo sobre cada passo da menina. Como disse, Cecília é sempre Cecília.

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