Barbazul


O famoso Barbazul, ou Barba Azul, ganha mais um tom de mistério pelos traços de Anabella Lopéz.

Há muito, muito tempo, quando eu tinha 5 anos, uma história me apavorou durante à noite – eu a ouvia nos clássicos Conte outra Vez, pela Ed Globo, que vinham em uma coleção de fitas k-7 e livros ilustrados, em capa dura (vale um saudosismo gostoso aqui).

Quando vi esta edição da Aletria, recontada pela incrível Anabella López, eu não pensei duas vezes – comprei já torcendo para aquele ar de mistério voltar.

A história de um nobre, meio estranho e grandalhão, muito misterioso, que morava em um castelo e tinha muitas riquezas pode parecer comum nos contos de fadas. Só que ele já havia se casado algumas vezes, e ninguém sabia do paradeiro de suas esposas. Elas simplesmente desapareciam.

As pessoas de seu vilarejo tinham muito medo dele, pela sua aparência e rispidez. Era um nobre muito arrogante e violento.

Um dia, Barbazul quis casar com uma das filhas de seu vizinho, uma ideia pavorosa para a família, mas uma das filhas aceitou sua proposta e foi viver com o rabugento em seu Castelo.

Muitos tesouros, regalias e pompa da nobreza deixaram-na muito tranquila. Até o dia em que seu marido teve que se ausentar a trabalho e deixou com ela um molho de chaves. De todas elas, sua esposa não poderia usar uma – proibida de adentrar por uma portinha, no último andar do castelo.

Tomada pela proibição e pela curiosidade, ela foi ver o que tinha escondido naquele quarto e se deparou com uma cena assustadora. Não teria mais volta. Ela sabia que seu marido descobriria sua traição, e por isso teria o mesmo fim que suas outras mulheres.

Se você não sabe ou não lembra do final da história, vou reservar esta surpresa.

Mas o livro traz este reconto de forma primorosa. Talvez tenha me causado mais medo, pelos traços da ilustração de Anabella, que transmitem as sensações de mistério e segredo através das cores, principalmente. Sem rosto definido, quase como um vulto ou fantasma, Barbazul se forma como sombra, como algo opressor e amedrontador.

O tom da barba, os dégradés de cinza e azul, sua interpretação da chave, que se modifica ao uso, o rompimento da narrativa pela mudança de cor... Um tudo!

A edição foi ganhadora da categoria Tradução Reconto, do prêmio FNLIJ 2018. Viu? Imperdível!

Disponível na TRAVESSA

POR QUE LÊ-LO

Contos de fadas são sempre clássicos e há quem goste de manter a tradição de tais contos e há quem gosta de ficar bem longe.

Sem querer aqui levantar a pauta (muito importante, diga-se de passagem) sobre os problemas e acertos dos contos de fadas nos dias de hoje, eu particularmente sempre gostei de trabalhar com eles. São fantasiosos e épicos e, graças a Perrault e Grimm, têm sempre finais positivos e reflexivos - mesmo que às vezes com um tom de moral de história, que já não sou muito fã.

Barbazul para mim vem de um lugar emotivo. Da lembrança e do medo, do falar com estranhos, de homens e mulheres, terror... Aquele mix bacana que encanta a criançada.

Anabella me cativou quando traduziu pelas suas ilustrações todo esse mistério que envolve uma mulher, seu marido e uma porta cheia de suspense. Para coroar o significado que tal história opressora tem hoje, para nossa sociedade, sua dedicatória não poderia ser mais certeira "Para todas nós, mulheres".

E como todo conto tem um fundo de verdade, Charles Perrault sabia muito bem como se apropriar de fatos para fantasiar e criar belos contos de fadas, que muito explicam para nós da história. Existem rumores, muitos, sobre a origem de Barbazul – que poderia ser uma história baseada na vida de alguns nobres sanguinários, como um companheiro de Elizabeth Bathory ou quem sabe Henrique VIII, que foi casado com seis esposas e responsável por matar duas delas. Mistério, mistério, mistério.

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